2009-09-30
1-QC88/1893090410.2159
2009-08-30
0-QC78/208308049.1855 (Post mortem)
2009-08-01
Solis dies (Mors omnia Solvit)
Solis dies:
Mors Omnia Solvit
Já chega, não aguento mais!
Hoje vou morrer. Vou morrer por mais uns tempos, deixar-me ficar inerte no branco vazio onde me deixaram. Acabam hoje as folhas em branco onde risco as palavras alucinadas do louco. Fui usurpado de mim, retiraram-me o espaço onde nasci, onde fui criado, onde evoluí até hoje.
Hoje vou morrer. Roubaram-me o meio envolvente, o meu suor, as minhas palavras. Tiraram-me tudo o que vi no mundo, páginas e páginas onde caminhei, teclas que outrora, diminuto pela minha força de vontade, pisei no esforço do trabalho de quem descreve a sua inútil vida.
“O Ego vai morrer, o Ego tem que morrer até renascer”, dizem as vozes. Eu, o Ego, vou destruir-me por causa disso. O tempo está a acabar, o meu espaço a terminar. É como se a televisão se desligasse e rapidamente o ecrã vai a preto, permanecendo o círculo no centro, branco, e então… puff… desliga-se.
Estou cansado, tão cansado.
Prolongo o meu prazo de validade. Nos últimos dias sou vítima de um entorpecimento que me avisa que o fim está próximo.
Penso em deixar-me morrer de fome.
Não como há três dias.
Não consigo deixar de beber.
Aflige-me a secura.
Sei contudo que a minha morte está próxima pois começo a fraquejar e o mais fácil dos movimentos demora séculos a executar. Ao escrever em papel a minha caligrafia não passa de um gatafunho só a mim perceptível. Morrerei em breve por todos os motivos que consigo imaginar.
Sem-abrigo.
Não tenho casa e quero lá voltar em breve. Quando voltar ao meu refugio deixar-me-ei desfalecer na minha cama de pedras e plástico.
Pergunto-me se será hoje o dia em que morro…
Ao acordar dorido, no meio das pedras e do plástico, faço pela primeira vez neste dia, a pergunta:
Morro ou deixo-me viver?
Escrevo “pela primeira vez neste dia,” porque ao longo destes meses deambulo apenas entre pensamentos sobre a morte, o suicídio concretizado e os dias comatosos em que estive mesmo morto. Foi um ano perdido, em que me perdi e perdi muitas pessoas no processo. Perdi capacidades e perdi memórias. Perdi a noção de quem sou, de quem fui e como nasci. Deixei de viver, vivi na morte.
Estou de passagem numa espiral. É uma linha ténue, bidimensional. De um lado é vida, do outro é morte. Eu estou no lado da morte. Piso a linha, morto, cheiro a morto, vejo mortos. Só vejo mortos.
Vagueio...
Tenho a sede do homem morto. As moscas sobrevoam o meu corpo esperando depositar os seus ovos.
Pousam.
Afugento-as.
Quando morrer vou deixá-las colocar as suas larvas em mim, vou deixá-las criar vida a partir de mim. É positivo saber que de um cadáver sai vida. Não me importava que necrófagos viessem buscar a sua parte. Não vejo nenhuns e não consigo procurá-los.
Os tempos mudam e com um pouco de sorte quando renascer talvez eu mude com o tempo e tudo em mim seja diferente. Não desejo passar mais um ano a morrer. A morte é a saída mais fácil de todas que eu poderia ter optado, isso é inegável, mas não quero seguir novamente a saída mais fácil.
Chamaram-me cobarde por não querer lutar mas quem me chamou cobarde tem medo de morrer. Tive medo de lutar. Tive coragem para morrer. E daí? Outros têm coragem para lutar mas pavor da morte.
A minha Razão vem de um turbilhão de conflitos mentais que saem para a folha, confusos, dispersos. É difícil segurar a caneta, é mais fácil morrer.
Deito-me…
Bebo mais um travo mas continuo com sede…
O vazio aproxima-se.
2009-07-06
Veneris dies, Solis dies
Veneris dies:
O Sol queima-me a pele. Enquanto isso, pequenas gotas de suor escorrem pela minha face. As gotas são alheias ao que se passa, meramente querem soltar-se de mim desconhecendo que vão a caminho da morte. Suicidam-se.
Aproximam-se mudanças. Eu gosto de mudanças, menos quando elas me mudam. Não gosto de mudar; gosto de evoluir porque as mudanças não me afectam tanto. É como se não mudasse.
O pescoço chama-me!
São pequenos sinais indicadores de outras coisas. São sempre coisas, pequenas coisas. Vê-se a pele pelo transparente véu. Semelhanças…
Coisas…
Gestos. Suavemente estalam xícaras ornamentadas…
Solis dies:
A minha boca tem o sabor que a boca de um coprófago há-de ter. Dela só sai e só entra o mesmo que entra e sai da boca do coprófago.
As formigas andam para trás e para a frente numa orientação desorientada. O enxame voa descontrolado, confuso, enquanto eu o observo. Tempestades de pensamentos. É como se os ouvisse mas são tantos que não consigo percepcionar nem um deles.
Caem os véus, caem os céus. Não sei o que fazer. Fico sem saber o que fazer. Relógios marcam o tempo. Quanto tempo falta? Sei lá. Não sei nada.Quanto mais procuro, menos descubro.
2009-06-30
(anacronismos)
Os acontecimentos seguintes passam-se num tempo que não o tempo presente e são as crónicas de dias perdidos nesse tempo.
Iouis dies:
Após a tempestade vêm aguaceiros leves. Não reparei na bonança quando ela passou aqui ao lado. Ignorei-a. A chuva permite andar descalço na estrada, não é tão mau quanto dizem. E sozinhos lutamos melhor pelos nossos direitos à sobriedade alheia.
“Abre os olhos”, dizem-me sem abrir a boca. Parti os dentes. Os acontecimentos não voltam a passar-se. Passei-me!
É como se vivesse sob influência de um efeito borboleta em piloto automático, onde abdiquei das outras personalidades para ser novamente só Eu. Estou furioso, descalço, na rua. A rua leva-me directamente à casa partida em quatro bocados de vários tamanhos que forma uma nova casa onde a luz do sol tem dificuldade em penetrar. Na sombra de uma das paredes escrevi uma vez numa letra minúscula: “EU SOU EU”. Limpei o pó e lá estava a frase escondida. Se tivesse sido um sonho, diria que era uma mensagem a dizer que Eu ando escondido debaixo de camadas de pó e terra e lixo.
Imaginei então que Eu, Ego Euich Jeiyo, era esse bocado de parede partida, obrigado a passar os meus dias, imóvel, como uma frase. Apercebi-me que Eu já não sei quem sou e já não sei quem é quem, tendo perdido o direito a dizer o que quer que seja. Devia tornar-me mudo, penso, enquanto sinto as rugosidades da parede nas minhas mãos. Não é a primeira vez que penso nestas coisas. Aliás, penso que nunca pensei numa coisa apenas uma vez assim como penso que nunca pensei nessa coisa uma primeira vez. A parede tem cores feitas de pó. Tenho medo de entrar pela porta, tenho medo de olhar pela janela. Olho pela janela, sempre é mais fácil que entrar pela porta. A janela está bloqueada por um objecto no interior que faz com que não consiga ver nada. Resta-me a porta. Se tenho medo e estou melhor cá fora porque me vou fechar?
Estou dentro da casa virado para a porta. Como vou sair? Tenho medo de abrir a porta.
É como quando o som está muito alto e julgamos ouvir chamar por nós mas estamos surdos por dentro.
É como se todos os sentidos se desligassem e quiséssemos brincar aos deuses. Deuses do faz-de-conta.
É como se não quiséssemos ouvir as nossas próprias verdades que saem num momento inoportuno da boca.
É como se num momento de lucidez absoluta a Loucura tomasse conta de um corpo, revirasse os olhos tornando-os brancos, o corpo entrasse em transe e a voz destrutiva de deus clamasse por vítimas inocentes. Um deus que se apodera das vítimas sugando-as, primeiro no interior e depois de sorvida toda a energia, se virasse para a carcaça vazia.
É como se deus existisse na sua infinita maldade.
É como se Eu não existisse.
(Mas nem deus nem Eu existimos. A verdade é que custa dizer a palavra “Desculpa”.)
Dentro da casa a porta abre-se. Lá de fora vejo outra casa igual com quatro paredes partidas. A porta que se encontrava aberta possuía um poder de sucção maior que esse deus que ainda há pouco estava presente, leva-me para um espaço em muito semelhante.
Era um rio, estava lá uma Utopia. Ela contou-me segredos mas decidi ignorá-la. Atravessei em águas pouco profundas e fui ter ao carreiro que começava do outro lado, no lado esquerdo da margem para onde o rio corre. Estava tudo como Eu queria contudo fui forçado a voltar para a casa partida em quatro paredes.
Vejo com os olhos de cego o destino.
Lunae dies:
Vi o meu corpo transformar-se num objecto abstracto, semi-animal, semi-natureza morta. Apesar de me sentir vivo, um vazio ocupava a totalidade da minha mente, tornando-me um vegetal estampado para o exterior. Não me conseguia mexer. Nada se mexia a não ser eu que não passava de objecto inanimado no chão verde. Eu também era verde mas não era um vegetal. Era algo amorfo com conteúdo. Era uma criança crescida. Era vazio sem ser oco. Era um livro aberto numa página em branco.
Mercurii dies (ou dia nenhum):
Calmo, controlo a respiração para que ela não me fuja. No calor do dia me refugio, na frescura da noite me revelo. Mentalizo-me; eu não sinto nada. Está tudo na minha cabeça. Acalmo-me um pouco… estou melhor. No entanto a minha cabeça não se convence e daqui a uns dias voltará a manifestar sintomas de um desequilíbrio. Eu tenho o poder para controlar estes sintomas. Afugento-os com uma vara. “Até NUNCA”, digo-lhes… “até nunca”… eles não voltarão. Nunca mais.
Lunae dies:
É hoje. Ontem não o foi porque passou à frente…
Chamam-lhe pôr a carroça à frente dos bois.
Martis dies:
Num minuto estava em casa e no minuto seguinte estava na ladeira com o homem velho. Estávamos a olhar para a casa de vermelho ocre, casa esta abandonada. O homem velho retirou do bolso das calças velhas um pequeno saco de plástico transparente cheio de chaves antigas, umas de tons dourado, outras com um tom de bronze gasto. Disse-me que as tinha encontrado à porta, num caixote do lixo. Desaparecemos reaparecendo no segundo seguinte em frente à porta de entrada, feita de madeira e com a parte superior em arco. O homem velho abriu o saco do qual retirou uma chave, a maior que lá se encontrava. Meteu-a na fechadura, rodou-a e imediatamente se ouviu o barulho do trinco a abrir. Já nos encontrávamos no interior numa espécie de salão com soalho de madeira. O salão tinha quatro portas e duas passagens para outras divisões anexas onde se viam janelas sem vidros. Ele retirou um molho de chaves e foi abrindo cada uma das portas daquilo que vim a descobrir serem quartos. Todo o piso da casa estava desprovido de mobília sobressaindo o soalho de madeira, sujo e podre. Cheirava a mofo.
O homem velho disse-me que o seu pai trabalhava com alhos, transformava os alhos em pó… fazia alho em pó.
Ouvimos um barulho e olhámos para o tecto. Este tinha buracos por onde um homem, outro homem, observava os nossos movimentos. Imaginei que já o fizesse há algum tempo. Estávamos de volta à porta da casa, o homem velho e Eu, subimos um lanço de escadas de cimento até ao primeiro andar, onde de novo a porta se encontrava fechada.
O homem velho afirmou que não tinha a chave deste andar mas o homem que estava lá abriu-nos a porta e convidou-nos a entrar. Estava a arranjar esse piso. Falou-nos de como tinha ido lá parar. Não tinha casa e aquela foi a que encontrou. Então começou a torná-la confortável para si. De facto este piso encontrava-se em melhores condições que o de baixo.
O homem disse que estava a morrer. Quando o disse eu estava novamente na ladeira em frente à casa. Desci a ladeira e encontrei um campo de trevos. Procurei um com quatro folhas. Encontrei-o mas tinha uma das folhas, possivelmente a quarta com um buraco, comida pelos bichos. Mesmo assim decidi levá-lo ao homem. Não consegui chegar lá.
Lunae dies:
Chegada…
Aterro no abrigo e lá me deixo estar.
Mercurii dies:
Gone out…
Aqui só há apatia. Aqui só há catatonia… quão paralisado estou?
Bloqueado para escrever ou para outra coisa qualquer. São palavras cruzadas entre linhas em branco. Afinal, nem as linhas existem. Tal como eu. Faz dias que me sinto assim, inexistente. Mostro cada vez mais de mim e menos da minha realidade
Milhares de sombras que me assombram.
Está frio no calor do dia.
Eu tenho frio!
Ter frio de calor é como se o frio estivesse lá para o meu egocentrismo.
Não fosse eu o Ego.
Só vejo “pseudos”.
Eu sou um deles. Estou congelado. Meto-me no buraco, o espírito abandona-me…
Uma casca vazia…
2009-06-21
Solis dies
Saturni dies----Solis dies
Tal como eu já não sou eu---- corto a mudez a meio e deito as metades ao rio- como uma metade para me calar... calado estive eu, calado estiveste tu... mi mi mi...
saltinhos de calor em dia abrasivo para o sistema sináptico...
Hãããããããã????? o que diabo é isso?
diabo, diabo onde é que anda o diabo?...
está ali, está ali, apontou a menina.
que menina?
a menina que estava ali de vestido, não a viste?
A menina apontou? qual menina?
hãããããã~~aãããããã~~aããããã~~aãããã~~aãããã~~aãã~~aããã~~aããã~~aããã~~aããã~~aããã~~aããã~~aããããã~~aãããã~~a~?
que menina?
quem és tu? eu não és de certeza...
E volta a mudez--------- - -- - -- - - -- - - -- - - -- - - - --- -------- --- ---- --- ------- --- ---- -- ------ - -- -- - ---------------- ------ ---- -- -- ---------- --- --- --- -- -- -- -- - - -- -
Hã?
2009-04-29
Lunae dies, Martis dies
Lunae dies:
Isolamento!
Criei uma sinfonia que só os meus ouvidos conseguem ouvir, pus o volume no máximo e fiquei surdo para o mundo exterior. Coloquei uns óculos de sol, fechei os olhos e tornei-me cego para o que me rodeava.
Abstraído percorri os chãos de alcatrão, de calçada, de vegetação. Choquei contra algo que pelo tacto se assemelhava a uma árvore. A sinfonia continuava… molto allegro… não abri os olhos. Palpei o obstáculo até o contornar e segui caminho. Senti os pés a molharem-se.
No meu interior, além de música e completa escuridão provenientes do lado físico, havia uma mistura de cores nunca descobertas. Dei-lhes os nomes de ciloca, ablinho, hálcia, harim, ôrmil, sáve, liroca e queto. Deixei a cor queto para o fim porque foi a minha preferida. Quando abri os olhos de novo, quando acabou a sinfonia, estava num lugar estranho, no meio de uma estrada com carros a buzinar-me. Pedi informações sobre o caminho de volta a casa e corri para lá. Fiz uma mistura de pigmentos mas nenhum deles se tornou a cor queto. Conclui que estas cores não podem ser criadas nem vistas a partir de nenhuma outra cor. São as cores da alma, as cores do sonho, as cores do id…
Martis dies:
É difícil ver coisas porque as coisas são e podem ser tantas coisas.
Eu vi tantas coisas.
O que são coisas?
O que é a palavra COISA?
Digo “coisa” e não me soa a nada. Não sei onde foram buscar estas coisas.
É coisa-ruim!
Coisa!!! Será alguma coisa quando pode ser tudo?
Quando digo que vi uma coisa, o que vêem os outros como essa coisa?
Será a mesma coisa que eu vi?
Serão coisas todas aquelas coisas que não temos nome para descrever?
Será deus uma coisa?
Que coisa estranha, coisa.
Quem inventou a palavra coisa devia estar coisado senão chamar-lhe-ia outra coisa qualquer. E quando sinto uma coisa, o que estou a sentir? Eu nem sei que coisas sinto!
Sinto-me uma criança que sabe somente coisas e que nem sabe que coisas sabe.
Sinto-me coisado.
Será que penso nestas coisas quando as escrevo?
Coisa bizarra…
A aranha está a percorrer a tinta amarela do meu lápis. Demora eternamente a atravessar e preciso usá-lo. Pronto, já está na extremidade da mesa, será que vai saltar?
Seis minutos de Tchaikovsky.