2012-01-19

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Exílio. Terra sem lugar, sem tempo. Tempo paralisado. Eu paralisado.
Um punhado de almas generosas que nem sequer conheço pessoalmente deu-me a honra de poder escrever algumas linhas num bocado de papel virtual. “O sangue é por tua conta”, disseram. Eu sei bem que a tinta é por minha conta, sempre foi. Na terra onde não há canetas, nem lápis, nem sequer um bocado de carvão, o sangue é sempre por nossa conta. Tenho que o arranjar de alguma forma. Recorro ao meu corpo e ao de alguns cadáveres que descem o rio. Profanar cadáveres não é crime aqui, podemos matar impunemente, violar os corpos sem alma, levada pelas águas.
Passaram meses desde que tudo aconteceu. Parecem séculos. Recebi a sentença acreditando que ela nunca seria executada. Custa-me acreditar que as coisas mudam, no entanto as mudanças carregam-nos às costas como mulas e, se não podem com o nosso peso, arrastam-nos pelo chão. A única coisa que me permite suportar o exílio é a ligação que consigo ainda sustentar com a minha anterior realidade. É frágil este vínculo, não consigo mantê-lo durante muito tempo, apenas o suficiente para me fazer acreditar que o mundo não acabou à minha volta.
Duas pessoas são mais importantes que as outras neste processo. Um deles é o guarda da fronteira que me deixa passar incólume para deambular durante dias entre vielas. Ninguém parece já lembrar-se de mim, às vezes sou ignorado pelo próprio guarda que me deixa simplesmente entrar no país donde fui expulso. Outras vezes tenho que ficar horas a ouvi-lo contar as histórias de como se tornou agente aduaneiro, de como evitou que o país ficasse em risco inúmeras vezes. É uma pessoa interessante, contudo perde-se no período das suas próprias histórias. A outra é a dona do albergue. Tendo sido desterrado fui privado dos documentos que me identificam e isso é usualmente necessário para que me seja permitida a estadia. A mulher, apesar de carrancuda, deixa-me ficar num dos quartos escondidos no fundo do albergue. Uma velha, baixa, que só se queixa das dores de dentes e das dores de vida. No entanto tem uma vida bastante fácil. Não lhe digo isso obviamente, não vá ela expulsar-me do meu quarto, obrigando a esconder-me em buracos bem piores.
Recordações de casa. Os mesmos cantos empoeirados de sempre. Visitas. Pessoas do passado, passageiros das minhas vivências vieram durante os últimos dias inquirir-me, felicitar-me, achincalhar-me, despedir-se.
Os homens que me vieram buscar. As suas gabardinas. Conversa com os homens. “Não é pessoal, amigo. Estamos a cumprir o nosso trabalho. Não leve a mal.” Pobres homens. Paupérrimos homens.

Encerrar de um capítulo. Já vem atrasado. Lamento fazê-lo de uma pátria que não é a minha. O meu crime. O crime de ter roubado um corpo. Um corpo que jamais seria meu. Um corpo que nunca desejou ser meu. O corpo que sempre desejei. O pecado da cobiça. O corpo que perdi. Perdi as ligações sem as ter perdido.
Passei por mentiroso, certamente. Continuo a passar por ardiloso, um impostor, filho da Hipocrisia e do Fingimento. Ela não é minha mãe e não foi isso que sucedeu. Sou órfão. É muito mais complicado que isso. Se quisesse não conseguiria explicar. Quaisquer que fossem as palavras que usasse serviriam de nada no meu caso. Possivelmente seria melhor representado por um advogado. Nenhum desses bichos me quis representar.
O meu exílio não é constante, admito a custo. Voltei e vi que nada mudara em mim. Que merda foi essa? Pareço criar a premissa para um imbróglio. Imbróglio que eu criei para mim e como tal, não me consigo livrar dele.
E agora? Permaneço igual, com mais uma peça, menos uma peça; o que é que isso importa? O que ganhei eu com isto tudo a não ser o meu exílio? Como posso considerar o exílio uma vitória. Sou estúpido ou quê?
(Foi quando reparei que as ligações são muito mais frágeis do que julgara, que eu valho muito menos do que pensara.)

2011-08-05

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Os homens fogem. Eu persigo-os pelas ruas e becos. Um deles, o mais alto, usa uma gabardina amarela, com capuz. O mais baixo veste um fato de terylene cinzento às riscas. Os sapatos não os deixam correr bem. Ecoam nas ruas enquanto batem na calçada. Parecem cavalos. Estou quase a apanhá-los. Mais uns metros. Um deles aponta para um café enquanto passa por ele, cambaleante. Eu olho. É o que procuro! Paro. Miragem. Momentaneamente é o que procuro mas não passa de uma ilusão.
Volto a perseguir os homens. Perdi-os de vista.
Paro novamente, ofegante.
“Para que continuas a insistir? Não vale a pena procurares mais. Sabes quem são os homens?”
“Não, não desisto. Hei-de encontrar!”
“Não vais encontrar nunca. Eu sei o que sentes. Mas não vais encontrar porque nunca perdeste. Tu deitaste fora.”
“Ridículo.”
“É a realidade. Aceita-a. Não queres aceitar a realidade. Nós, aqui, sabemos melhor que tu. Tu enganas-te a ti próprio. Nós temos que sofrer as consequências dos teus actos e estamos fartos. Pensas que não queremos? Queremos mais que tu! Tu não tens noção. Perdeste a noção há muito tempo. Foste tu que fizeste para perder tudo. É por tua causa que vamos ser exilados. É por tua culpa que perdemos o que queremos encontrar. Tu desperdiças o melhor que tens. E nós sentimos tudo.
Nós é que agonizamos enquanto tu andas à procura. A agonia dá-nos vómitos. A tua mente fede com o veneno que expelimos por tua culpa. Tu queres morrer e como sabes que não consegues tentas matar-nos a nós. Feres-nos. As nossas feridas carregam o teu pus, o pus que infecta e turva a tua mente. Adoeces-nos.
Porque destróis tudo? Deixa algo intacto por uma vez nessa miserável vida. Expulsa-nos ao invés de nos aniquilares. Todos os dias somos abalroados por mais uma das tuas lanças. Sabes que também te estás a destruir e no entanto continuas. És uma besta sem açaime. Cão! Verme!”
“Queres começar uma nova guerra? Perderam a última.”
“Não vale a pena falar contigo. Não percebes. Só perdes.”

2011-07-23

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Exaustão. É melhor sentar-me. Acendo um cigarro. Continuo a não encontrar o que ando à procura. Podia encontrar-me a mim. A verdade é que quanto mais se procura menos se encontra, os velhos têm razão.
Não consigo livrar-me da sensação de que alguém me está a observar. Paranóia. Não posso pensar nisso. Só penso em…
“Podias ajudar-me!!”
Não obtenho resposta. Em três passas fumo o resto do cigarro. Levanto-me para continuar a minha busca. Olho para um beco. Estão lá dois homens, numa esquina, a olhar para mim como se eu não os visse. Caminho em direcção a eles. Escondem-se. 

2011-07-21

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Regresso a correr a casa. Subo as escadas, abro a porta, procuro a lupa e volto a sair a correr.
Há-de estar algures.
Não descolo do chão. Procuro incessantemente. A minha mente diz que é inútil mas o corpo manda continuar. De vez em quando olho para trás. Tenho a sensação de estar a ser seguido.

2011-07-20

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Encosto-me a um canto empoeirado. Penso em todas as pessoas que conheço. Enfio o meu nariz no pó. Deito-me completamente. Reviro-me. Estou sujo. Inalo o pó. Tusso. Tenho que sair de casa. Procurar. É preciso procurar. Pode não estar tudo perdido.
Irrompo pela porta e estou no meio das ruas sobrelotadas. Procuro por todo o lado. Vagueio entre as vielas sem nada encontrar. Doem-me os pés. Perdi. Sei que perdi para sempre. Continuo a procurar. Tudo me parece o que quero encontrar. Perdi. Vergonha. Vergonha e medo. O mundo inteiro ri-se de mim. Todos sabem. Deambulo pelas ruas empoeiradas. O sol queima-me. Não encontro. Nunca vou encontrar. Alguém já encontrou. Perdi. Desespero.

2011-07-19

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Acordo com a boca seca. Tenho a sede do homem morto. Alguém bate na porta da cela. É o guarda. Entra, segura com a mão a manga e leva-a ao nariz. Faz um comentário ao cheiro. Diz-me que está na hora. Pergunto-lhe que horas são. Não responde. Olha para mim.
“Tens que tomar banho e vestir-te. Está na hora.”
“Hora de quê?”
“Vais fazer-te de estúpido agora? Segue-me!”
Baixei a cabeça e segui-o. A água gelada da prisão parecia acordar-me a cada gota que caía no meu cachaço. Vesti-me e parei em frente ao guarda. Levou-me pelo braço para uma sala que me era familiar. A mesma sala onde fui condenado. Mais uma vez a sala enche-se com a plateia e com o juiz. As pessoas cochicham nas minhas costas.
Todos se levantam menos o juiz. Faz-me um sinal e chama-me ao pé dele. Após algumas acrobacias debruço-me sobre ele. Ele diz-me ao ouvido que não é preciso a audiência saber a minha sentença. Depois diz que da minha culpa não há dúvida. Não valeria a pena condenar-me à morte, uma vez que já tinha passado por lá e, por exclusão de partes, a melhor punição que encontrara fora o exílio. Pior ainda, ser-me-ia negado o meu maior desejo. Disse que antes do meu exílio tinha que me despedir de todos os conhecidos e dizer-lhes que esta era a minha sentença, que eu era culpado.
Mandou-me para o meu lugar. A plateia inteira cochichava enquanto ia desaparecendo. A sala também desaparecia. Eu pensava no meu desejo irrealizável, para mim muito pior que o exílio.
A sala desapareceu. Estou em casa.

2011-07-11

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O que sei eu?
Até quando tenho que ficar aqui preso?
Condenem-me já à morte. Há vários dias que o ar aqui se tornou irrespirável com o cheiro a fezes e a urina. O meu corpo tem o mesmo cheiro. O pequeno buraco por onde entram as ratazanas é demasiado pequeno para levar a minha diarreia.
Estou farto de me ouvir. Estou farto de falar comigo.
Quero ouvir a minha sentença! Quanto tempo resta? O guarda já não me dá comida há semanas. Perdi a noção do tempo. Uma noite, quando sonhava, pensei que estava no campo, deitado na erva orvalhada a olhar para as estrelas. Tive a sensação de ser uma noite de verão. Perseguiram-me e eu fugi. Sou tão cobarde.
Quando acordei tinha uma barata a olhar para mim. Disse-me que eu estava a tremer e a mexer as pernas. Disse-lhe que era impossível mexer as pernas numa cela tão pequena.
Ela respondeu-me que tudo é possível e esgueirou-se por debaixo da porta.
Chamei-a mas não voltou. Olhei para os dias riscados na parede.
Está demasiado escuro, não consigo ver.
Vale mais fechar os olhos e deixar o tempo atravessar-me.

2011-07-04

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Atrasado.
Três dias passaram e, enjaulado, continuo à espera da sentença.
A minha solitária cela tem 1m², sou forçado a dormir ou em pé ou, aninhado sobre mim mesmo. À 1h em ponto vem o guarda trazer-me a única refeição do dia, nestes últimos três dias. Sei que é 1h porque ouço o sino da igreja, próximo, dar uma badalada. Uma badalada apenas.
Nestes dias tenho pensado no meu crime e por mais que pense nele, não me lembro de o ter cometido. Kafka deverá saber. Pelo menos foi o que um homem me disse um dia, pela porta.
“É mentira, não passaram três dias!”
“Quem disse isso?”
“Eu.”
“Não te vejo.”
“Mas gostavas de ver, não?”
“Claro, há três dias que não vejo ninguém a não ser parte dos dedos assalsichados do guarda.”
“Olha para a poça de água!”
“Só me vejo a mim.”
“Exactamente. Quando queres até sabes.”

2011-05-13

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Queria correr, saltar… Estou preso, atado, as mãos atrás das costas e não consigo sair. O homem branco segura-me pelas pernas enquanto me arrasta. Eu estou a ver o chão passar por mim. Toco-lhe com o rosto. Vejo o reflexo no chão. Não é o meu corpo que se arrasta. Fui privado do meu corpo. Não sei o que fazer para voltar a ele.
Tenho espasmos.
O que se passa?
Não percebo. O homem branco pára e encosta-me a uma pedra. Cuspo a areia que me entrou na boca. O homem balbucia palavras num dialecto que não existe. “O quê?”, pergunto. “Que queres de mim?”. Ele continuou a balbuciar.
Eu, desorientado, comecei a espernear. A fazer birra. O homem começou a olhar para mim fixamente, reparou que eu não percebia o que ele dizia e apontou para uma pedra idêntica aquela onde eu estava encostado. Era o meu corpo. Tremia de mãos atadas atrás das costas. Eu comecei a rir-me. O meu corpo do outro lado fazia o mesmo gesto. Depois disse para me chegar a mim. Não consegui fazê-lo. O meu corpo também não. Agora quem ria era o homem branco.
Apetecia-me chorar. O meu peito parecia conter um campo gravitacional. A pressão era enorme. O outro lado sentia o mesmo. O espaço desértico que me rodeava tornou-se uma sala. Eu estava sentado numa cadeira, no outro lado estava o outro eu e num local mais alto, ao centro, estava o homem branco, um juiz.
Tenho medo de mim.
Tenho medo de mim…
Tenho medo de mim…
Tenho medo de mim…
Tenho que sair…
Tenho que sair…
Tenho que sair…
Foge…
Sai daqui…
Inútil ter estes pensamentos. Era impossível escapar. A sala ficou cheia com a audiência. Começo a sufocar com a sua presença. Sinto que perdi o espaço. Sinto que perdi o tempo. Entram as testemunhas. Dizem que o corpo nunca foi meu, nunca o mereci. Só mereço fazer o que querem que eu faça. Mereço estar preso.
Só consegui dizer que todo o corpo merece liberdade.
Fui condenado.
Desconheço a sentença.

2011-05-06

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Atiraram-me uma pedra. Atingiu-me em cheio na cabeça. Não estava à espera, o que faz com que ainda doa mais. Nem a vi a chegar. Não sei quem a atirou.
Derrubou-me.
Dói.
Dói tanto.
Dói-me não só a cabeça mas o âmago, estrangulado por uma força que não decifro. Há coisas que querem sair mas não podem. Estão vedadas. Eu sou a minha própria vedação. Não me magoa mais a ferida aberta provocada pela pedra. Só magoa lá dentro, no fundo. Anseio por uma resposta que não chega.
Depois, o vazio. O medo continua. Escondo-me de ti. Tu escondes-te de mim lá no fundo. 

2011-04-07

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Eu vi um sapo. O sapo era colossal, do meu tamanho. Disse-me que me odiava desde que se lembrava mas não queria dizer porquê. Revoltado, insisti. Ele não me quis dizer. Ameacei-o com um cigarro. Ele não cedeu. Pus-lhe o cigarro na boca e vi-o vomitar as entranhas a uma distância segura.
Esperei que ele se recompusesse. Não aconteceu.
Esperei dias. Inutilmente. Já não esperava pelo sapo, sei-o com certeza. O sapo começou a cheirar mal. Eu esperei. O sapo desintegrou-se. Eu esperei. 

2011-04-04

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Calmamente levo as mãos a um prato partido e como bocados de porcelana.
Custam um bocado a mastigar mas são facilmente digeríveis.
Defeco caganitas iguais às do coelho branco com os olhos vermelhos.
As caganitas são levadas pelo canário amarelo para o ninho, uma tigela.
Elas crescem. Parecem-se com ovos. Eclodem.
São crias que se assemelham com matrioshkas feitas de porcelana, cujas caras foram desfiguradas por uma criança com os dentes afiados. Elas abriam as bocas para o canário lhes dar de comer mas ele recusava-se porque pensava que eram cucos.
Eu invadi o ninho.
O canário não gostou e começou a picar-me a testa.
Mesmo assim insisti e peguei na primeira matrioshka que consegui.
Abri e lá dentro estava uma outra, feita de madeira.
A terceira era invisível.
Peguei nela e atirei ao chão, pensando que era feita de vidro. Não era.
Ela, atordoada, fugiu e escondeu-se no meio de umas ervas, nunca mais a encontrei.
Voltei ao ninho mas as matrioshkas restantes já fugiam pela árvore de cartão acima. Tentei trepar mas o tronco era demasiado escorregadio.
Atirei berlindes de mármore.
Atirei esferas de metal.
Atirei-me.
Caí.
Estou no chão.
Espero pelas bonecas. Uma pelo menos. O canário canta no topo da árvore uma música que me satiriza. Eu rio-me. Deixo-me estar deitado. Ainda cá estou.

2011-03-23

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Caminhei sobre labaredas. Só os meus pés ficaram queimados. A culpa é do carvão quente. Cheira a carne de porco. Sob as labaredas está o homem.
“Qual é o jantar?” “Não como hoje, não comerei nunca mais.” “Ias comer o quê? A tua própria perna? Bem sabes que aqui não há comida.” “O que queres comer? Não sei o que eu quero.” “Sabes sim. Já te estás a salivar!”

2011-03-17

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Sou um rascunho mal feito. Eles começam a olhar para mim mas não me importo. É como se estivesse dentro de um sonho. Uma montanha de olhos. Estão à minha frente mas eu, que sou maior que a montanha, vou pisando olhos que cegam.
Analogia com a realidade?
Não sei.
Nunca soube. Quero ir para a Cochinchina, ouvir histórias cochinchinianas. Quero sair daqui. As personalidades desdobram-se e adquirem formas e temperamentos próprios. Perdi o controlo que há uns meses tinha. Conhecem-me melhor do que eu conheço a mim próprio. Quis Cochinchina mas despertei em Vaca Malhada.
Ego II: Ego, Ego!! Consegues ouvir-me?
Ego: Sim, e vejo-te.
Ego II: Não quero que me vejas assim.
Ego: Porquê? És igual a mim. E foste tu que me chamaste.
Ego II: Só fisicamente. E não quero que me vejas assim. Chamei-te para me ouvires, não para me veres.
Ego: O que queres?
Ego III: Parem os dois com essas merdas. Picuinhas. Os meus lábios estão ásperos de tantos cigarros fumar, o que é muito mais importante que qualquer merda que queiras dizer, Ego.
Ego IV: Eu sei onde querias pôr os lábios…
Ego III: Olha, chegou esta puta agora. Estávamos os três a ter aqui uma conversa entre homens.
Ego: Eu só quero estar sossegado. Podem deixar-me em paz?
Ego II: Mas… Tenho mesmo que falar contigo. É importante.
Ego IV: És tão fraco que até me enojas Ego. Seja lá o que for, o Ego já sabe, não? Já todos sabemos. E tudo o que disseres, mesmo em privado, vai ser conhecido por nós todos. E tu Ego, és mesmo um cabrão, sabes? Tens problemas com a minha intromissão na conversa?
Ego III: A cabra de merda está a armar-se em boa. Ainda ontem choravas baba e ranho.
Ego II: Ego, quero mesmo falar contigo.
Ego IV: Ahhh, cala-te!!!! Já todos sabemos. Não há nada a fazer!!! Pois não Ego?
Ego: Deixem-me em paz. Quero estar sozinho!
Ego III: És um otário!
Ego: Eu sei.
Ego V: Que alarido é este? Ego, nenhuma sentença ou agregado de vocábulos vai fazer com que a conjuntura actual tenha outro desfecho. Queres apaziguar o teu estado mas só o estás a agravar. Deixa que o tempo se pronuncie. Vós, parasitas, desaparecei. O Ego já disse que quer estar sozinho.
Ego: Obrigado, Ego.

2011-03-03

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O cão não pára de ladrar. Não o consigo ver. Consigo ver, além do negro que me cega os olhos, as luzes intermitentes. O cão enfurece-se e começa a ladrar mais rápido. Rosna. Eu ouço-o na escuridão. Ouço mais ruídos imperceptíveis. O cão continua.
Fico perdido, assim, cego. Contudo sabia que me ia acontecer. Percorro, apalpando o espaço, o caminho até à janela. Conheço o caminho de cor. Encosto o ouvido ao vidro frio e húmido que me arrepia após o primeiro contacto.
O cão calou-se. Ter-lhe-á alguém batido para ele parar de ladrar?
Vou deixar-me ficar aqui encostado, a esperar que alguém me venha segredar uma palavra ao ouvido.
Aguardo no silêncio.

2011-02-28

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Consegui escapar. Cigarros. Rua. Aromas. Cheiros reais. Pessoas.
Encosto-me a uma parede, acendo um cigarro. Fumo-o o mais rápido que consigo. Pessoas, mais pessoas. Faces. Há quanto tempo não via faces. Rostos que não são os meus. Quando volto à prisão? Questões, mais questões. Tenho que ser rápido. Pensa.
A paixão onírica no átrio da origem. Ele leva a nota ao odioso mensageiro enumerando quantos ultimatos este receberá.
Quer-me? Não sei. Olhos castanhos, penetrantes. Não me dizes nada. Estou à espera. Estás em silêncio. Eu mantenho o meu silêncio. Não quero que me denuncie.
Sinto-os a perseguir-me. Acendo outro cigarro. Começo a correr. Faces olham-me enquanto eu as observo. Corro. Sou apanhado.

2011-02-26

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Lido com a incapacidade de liderar as personalidades. Sou eu o reflexo. Não sou eu. No início houve paz mas logo que tive a primeira dúvida dividi-me. E após essa divisão em duas facções que desejam o oposto, não tardou que se dividissem em mais duas. Essas duas dividiram-se em quatro. Perdi a conta…
Neste momento somos já duas facções apoiadas por várias partes. Eu conto com o apoio de várias personalidades que me são fiéis, mas tenho o Medo. O Medo é uma autoridade que, apesar de estar do meu lado, só atrapalha. Do outro lado não acontece isso. Eles fazem o que eu quero fazer mas não posso. Cumprem feitos que eu não ouso fazer.
O pior é que, de quando em vez, eu próprio me vejo inclinado para a outra facção.

2010-11-30

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Pacta Sunt Servanda
(Partes de um todo, inexistente, um fôlego de existência que não me pertence.)

A solidão levada ao extremo fez com que dentro de mim nascessem novos “eus”, fragmentos de uma personalidade fragmentada. O conflito entre as várias identidades despoletou a 1ª Guerra do Ego, vencida por mim após inúmeras batalhas perdidas. A primeira medida tomada foi o exílio dessas personalidades. Agora, devido à solidão que volto a sentir, permito que voltem com a condição de não haver atentados ao poder soberano: Eu. Não consigo deixar de sentir inveja pelas outras individualidades porque elas sempre estiveram juntas e eu sempre estive sozinho. Elas sempre tiveram força e eu sempre fui fraco.
Com o intuito de chegarmos a um consenso, juntamo-nos numa sala no interior da minha mente. Um salão enorme, alvo, de calcário e mármore, com janelas de vidro caleidoscópico mirando o branco profundo era interrompido de quando a quando por grossas colunas em estilo clássico, ornamentadas com folhas de palma. O chão inteiramente de madeira, envernizado ao ponto de nos podermos ver reflectidos no seu brilho possuía ao centro uma mesa de carvalho, maravilhosamente esculpida com motivos saídos do meu subconsciente, semelhantes a figuras de diferentes mitologias. Nas cadeiras, igualmente gravadas, sentavam-se os meus homólogos. Ocasionalmente, a mesa aumentava de tamanho e do nada apareciam mais entidades, e outras vezes diminuía e desapareciam, chegando a ficar sozinho numa pequena secretária. Quando estavam todos à mesa o som era ensurdecedor. Disse:
“Sou eu quem fala neste momento.”
“Dirijo-me a vós!”
Todos se calaram. Ficamos todos calados durante três segundos. Após esta breve pausa, já tudo estava decidido e sem necessidade de trocar nenhuma palavra, comunicámos instantaneamente todos os nossos pensamentos. Apesar da discordância de alguns dos elementos deste consílio acerca da minha liderança, foi criado um tratado.
O Tratado de Super-Ego.

2010-11-24

11-QM88/21115122112.2238

11-QM88/21115122112.2238
 Sento-me em frente a um monitor com uma página em branco. Lentamente, levanto os antebraços, abro as mãos e divido os dedos pelo teclado, sem fazer força, na pose de um pianista que se prepara para tocar.
Como em 4’33’’ apenas o silêncio se faz ouvir.
Não sei como hei-de começar.
Tenho tanto para escrever e não sei como contá-lo.
Não sei se me lembro como começou ou quando começou.
Como? Quando?
Uso um caderno que em delírio rabisquei com frases soltas. É uma ajuda preciosa para poder iniciar este exercício. Porque me parece um fardo? As minhas mãos não se querem mexer. É preciso começar por algum lado, é necessário encerrar este capítulo. Abro o caderno à minha frente. Transcrevo:
“Quando as linhas negras se entrecruzam, o símbolo rachado espera ansiosamente pelo boneco, ora de madeira, ora de ferro, que se solta uivando pela toca fora. Esse delírio comatoso que nos faz sentir a raiva do mundo novo, aquele mundo que não se consegue revelar. Quando o tempo tiver um sentido único, a correr como o rio que se afunila num descomplexado jazigo de vida, quero morrer, quero morrer três vezes sem olhar para trás. As luzes seguem o trilho traçado entre betão/metal e alcatrão. As caixas metálicas acumulam-se, param, continuam, voltam a parar. Edifícios aglomerados, uma ponte, um túnel e depois uma cidade. Estou num daqueles estados em que nem tenho sede nem fome. Sinto-me quente, talvez um pouco demais. Os solavancos e barulhos são exteriores a mim. Sinto-me curado de certo modo. Néones iluminam o escuro além das lâmpadas. Eu não quero nada. Nenhum dos meus vícios tem qualquer utilidade neste momento. Vou guardá-lo só como um momento de paz. Vou esperar que passe e dê lugar a qualquer outro sentimento.
Hoje vi a Aurora, o Crepúsculo não estava lá. Senti que ela desviou o olhar para não falar comigo. Foi só de passagem, contudo vi-a lá. Eu julgo que me viu mas preferiu ignorar-me. Acontece isto com a maior parte dos meus amigos. Talvez o meu egocentrismo os afaste. Talvez eu me afaste. Talvez se tenham fartado de mim. Talvez eu esteja saturado deles.
Lembrei-me do dia em que saí do meu corpo. Não me recordo como o consegui fazer. Não sei se quereria voltar a fazê-lo. Sinto que perdi parte de mim nesse instante. Sinto que deixei naquela estrada um pedaço de mim que não é interior nem exterior, nem sei se tinha forma. Sigo adiante…”
Foi na Primavera. Parece que passou um milénio desde aquele dia. A partir daí o meu mundo começou a desabar, primeiro nos espaços onde me encontrava e mais tarde dentro de mim. Os sintomas faziam-se sentir há muito tempo, vejo-o agora, mas fui demasiado estúpido e egocêntrico para reparar. A outra teoria é que eu próprio quis que o que estava para vir me afectasse, ocasionado pela solidão e influenciado pelo outro eu. Fui manipulado por mim mesmo deixando-me levar cegamente a um ponto onde não teria fuga possível e donde não poderia escapar. Deixei-me iludir. Este relato serve para que, na eventualidade de me perder novamente, possa voltar atrás, saber o que se passou e conseguir voltar a encontrar-me de novo.
“Foi como se estivessem dominós alinhados numa mesa comigo no centro. Alguém, outro eu, tocou no último dominó colocado na linha espiral e todos eles foram caindo. Eu estava a vê-los cair e quando chegou a minha vez caí também. Não foi uma imagem bonita de se ver, os dominós caídos, mortos do 0/0 ao 6/6.
O mundo alterou-se completamente. Neste mundo, as bestas alimentam-se dos mais fracos, apoderando-se da sua vida, forçando-o a viver num mundo, o seu mundo. E a besta alimenta-se da própria fraqueza alimentando assim a sua própria força. Falam daquilo que sabem, tentam impedir os outros de saber mais. Proíbem-nos de realizar os feitos que já fizeram. O inculto erudito, após a sua condição ter sido experimentada. A sua vida é nula. Incomoda-o as diferentes formas que os objectos podem ter. «A leitura é um acto de liberdade», diz ele.
«Todo o acto de liberdade é a construção do humano.»
«Não é lugar para isso aqui. Vá-se embora se fizer isso. Mas isso é o que constitui a sua liberdade.»  
E quando as bestas se juntam em grupo e partilham do mesmo prato?
Lutam pelo mesmo prato ou partilham a comida?
Depende de vários factores.
Devoram tudo e não sabem nada.
Podemos dizer que sabem tudo e devoram nada.
O ar aqui é pesado. O silêncio é profundo. Falta pouco, já saio daqui desta arena.”
Não me lembro quando escrevi isto e desconheço a razão porque o fiz. Manifestavam-se já de forma avançada todos os sinais da loucura que me tornavam unicamente num passageiro do meu corpo, uma embarcação sem capitão mas com inúmeros marinheiros sedentos do poder de chefia e de todas as regalias que isso implicaria. Eu sentia o meu receptáculo mas não o guiava, outros faziam-no sem tomarem atenção ao percurso nem a obstáculos. As sucessivas quezílias travadas pelos múltiplos tripulantes alteravam constantemente o trajecto e o objectivo do navio em ruínas fazendo com que sempre que houvesse uma mudança no poder, mudasse também o curso do corpo prostrado. Eu passivamente olhava para aquele espectáculo com desdém, nunca intervindo. Os apontamentos seguintes são meramente rabiscos febris, de tinta preta, que se deitam no solo que conhecem, o papel, para lá permanecerem acamados à espera que outra criatura decifre o seu significado. São gatafunhos daquilo que se constata ser um organismo desprovido de energia anímica, cujos gestos são selvagens não identificando ninguém. Desconheço se estes gestos são ainda meus mas transcrevo o que decifro como palavras que não parecem ser minhas.
“O sol bate na cabeça. Derreto-me como um ovo estrelado. Não consigo mexer-me. «Mexe-te». Vê-se o sol lá em cima, que me diz: «Não devias ter ficado tanto tempo a torrar. Derreto-te.» A pressão aumenta. A cabeça é um balão que se enche, prestes a rebentar, no momento em que a Hipocondria toma conta de mim. Sinto dificuldade em respirar e tenho cancro. As metástases multiplicam-se. Estou dormente.
Contam-se nove nuvens no céu. São gigantes feitos de algodão. Querem controlar-se mas deformam-se e formam-se novamente. As suas faces mudam. Há quem veja várias, há quem não veja nenhuma. São agora gigantes desfigurados. Não me dói a cabeça, só parece que está a querer sair dela própria, primeiro pelos orifícios, orelhas, nariz e boca e depois pelos buracos do crânio que estão tapados por pele e carne. Mais dormência… mais pressão… A cabeça parece explodir. Toco o nariz e os ouvidos à espera que saia deles algum líquido ou massa. Não consigo pensar.
(…)
Um homem levantou-se e caiu no chão, morto. Levantou-se de novo sem saber o que se tinha passado. Tudo era vermelho à sua volta. O homem tocou o vermelho e o vermelho fugiu. Aproxima-se lentamente o objectivo. Enquanto me aproximo parece que ele se afasta. Mais devagar que eu, certamente, porque continuo a sentir-me aproximar. Quando chegar lá vou inspirar e experienciar. Estou a guardar a respiração para lá. O que irei encontrar lá? O que verei lá? Ninguém sabe?
«Não, eu não!»
(silêncio)
«Eu também não!»
«De qualquer forma não importa.»
«Não importa porquê?»
«Não vês? Não me digas que não consegues ver.»
«Eu vejo.»
«Eu também…»
«Eu não consigo ver. O que é?»
«Olha para esta árvore. Eis que brotam as primeiras folhas da cabeça caduca. Começam pelo simples botão mas rapidamente se tornarão em verdadeiras folhas.»
(…)
A minha boca sabe a formigas. Engoli-as quando comi aquele pacote de açúcar. Não as vi mas acredito que elas já lá estavam antes de as ter engolido. São tão pequenas mas tão fortes. Gostava de ter a força das formigas. Aposto que ainda se estão a debater no meu estômago, grão de açúcar em grão de açúcar. Provavelmente vou abrir a boca e vão sair de lá uma ou mais formigas. Então, nuvens sobrevoam-me e deixam cair gotas de líquido verde sobre mim. Bílis dos céus. Em posição fetal, lembro-me que há vários aspectos da minha personalidade que mudaram nos últimos anos.
(…)
Deste texto não consigo descodificar mais uma palavra sequer. O texto torna-se apenas uma linha curva intermitente. Penso que todos os vocábulos indecifráveis são partes que nunca deveriam ter sido escritas. Passou mais de um semestre até que tinta voltasse a ocupar folhas brancas com melhor caligrafia. Todavia, já não era eu. Era um outro eu que se apossou de mim. Controlou as acções de um bonifrate com o nome de Ego Jeiyo. Ou então era Eu incontrolavelmente disperso no meu eu revelando outro eu alienado na minha memória, um eu que esqueci mesmo antes de começar a escrever, sendo que esse eu é o mesmo eu que se encontra neste momento a exprimir impressões, possuído pelo outro eu, sem nunca ser eu próprio. O eu é «Eu» sem ser Eu. Inimaginavelmente não me pergunto se o eu sou Eu. Deixo-me ser eu apesar de não o ser. É-me favorável ser eu antes de ser ele. Adiante:
“Jazem debaixo de sete palmos e meio de terra as horas desperdiçadas em horas desperdiçadas. Tempo perdido, é o que eu digo, tempo que passei assim… Apetecia-me roubar tempo para mim. Tempo extra para desperdiçar. Mais horas desperdiçadas…
«Então para que quero mais tempo se o vou desperdiçar?»
Mudando de assunto. Foi numa destas horas perdidas, ou para situar melhor no tempo, num minuto perdido, que encontrei a Aurora de novo. Memórias de outras auroras. Não estava com o Crepúsculo. Apesar de não me dizerem nada sei que eles se afastaram. A nossa relação degradou-se. Penso que a relação entre eles também se degradou. Quando encontrei a Aurora, cumprimentámo-nos e ficámos assim uns minutos, mais minutos desperdiçados. Ficámos como velhos amigos, que já não o são, amigos antigos que já não se vêm muito e quando se encontram, ficam-se por um «Olá.». Começámos a falar do tempo, naturalmente. Perdemos horas a falar de tempos passados. Perdemo-nos na memória desses tempos. Horas perdidas…
Volto para casa. Ao passar em escombros de várias casas arruinadas fico ansioso rezando que a minha não tenha sofrido o mesmo destino. Chego a mais ruínas. Entro na casa acabada de destruir com intenção de começar as obras de reconstrução. Uma pedra, duas pedras, cimento, mais uma pedra. Impossível levantar a casa de novo. Seria necessário uma equipa de construção muito maior. Só me tenho a mim e sou pouco. “
Comecei a sentar-me em bancos de jardim e ver pessoas a passar. Musas. Monstros. Ninguém. Deixei o tempo passar por mim e durante meses estive assim, sozinho, sem estar sozinho, sem esperar nada de mim. Deixei o tempo gastar-me juntamente com o banco, minha casa, até nos tornarmos um objecto só, inseparável.
Amnésia.
Falta-me o vocabulário. Não sei mais escrever, as palavras repetem-se frase após frase. Escrevo mil vezes a mesma coisa. Os meses seguintes são um borrão de tinta preta.
Um ataque de loucura foi o que me levou daqui deste espaço. Um ataque. Um feroz ataque de raiva, paranóia, medo… Estou melhor, já estou sozinho.
Esqueço.
Amnésia.

2010-04-11

10-QC9/303144284.1231

10-QC9/303144284.1231
É estranho vir acordar a uma casa que não é minha. A casa fica no meio do nada. Eu vivo cá, sempre vivi cá, descobri agora. Saí de casa, percorri uma pequena distância, só para ver que a casa era do tamanho do meu pé. “Como coube lá dentro?”, pergunto-me. Piso-a e salto até não sobrar mais que uma amálgama de lixo.

Ao pé daquilo que era a casa, uma garrafa, gigante em comparação à casa. Não tenho sede mas começo a beber. Não tenho vontade de parar de beber. Bebo como se nunca mais pudesse beber. A garrafa é mesmo enorme em relação à casa. A casa voltou, não os restos da casa, mas a casa inteira. É agora do tamanho dos meus joelhos. A garrafa é já maior que eu. Com muito esforço, com as duas mãos, levo a garrafa à boca e dou mais um gole. A garrafa está sempre cheia. Não penso em mais nada. Garrafas destas são para beber. Eu não tenho sede.

A minha cabeça divide-se em duas cabeças, depois em quatro, dezasseis, duzentas e cinquenta e seis… Perdi a conta.