2012-02-09



O frio aperta e aperta ainda mais a quem não tem onde se abrigar. Tenho pensado no homem da outra noite. Não consegui atravessar a fronteira. Estou cansado de esperar. Receio que as ulcerações me levem os dedos e o nariz. Decidi procurar o homem com a estranha barraca.
Vou perguntando de sem-abrigo em sem-abrigo. Ninguém parece conhecê-lo.
“Como é que se chama?”
“Barraca feita de quê?”
“Como é ele?”
“Costuma andar por aqui?”
Só conheço o vulto dele. Se o visse não o reconheceria. Só o vulto. Lembrei-me que apontou para o seu nome escrito na parede. O mais provável é que nenhum sem-abrigo desta zona o conheça. O lugar onde dorme ainda fica a uma longa distância e pouca energia resta a estes homens para percorrer a pé descalço o caminho.
É melhor pôr-me a caminho.
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2012-02-06


Mais uns dias perdido a deambular na ágora. Decidi ir falar com o guarda da fronteira para que me deixasse voltar clandestinamente ao meu país. Ele não permitiu. Desculpou-se com palavras retiradas de uma notícia no jornal. Disse que a segurança estava demasiado apertada e que saberiam que fora ele a deixar-me passar, caso fosse apanhado. “Podes sempre mandar uma carta.”
Não acreditei mas, ainda assim, não consegui dar-lhe a volta. Resta-me enviar a mensagem em papel virtual sabendo que nunca vai chegar ao destino. É melhor codificar.

“MC TGDDF IGS HMUG IGGPRJ
EWELA OZFPO R LGO WSXHR HMFVUQ ELW ESDHDS WGEHV EQI V FGBTS FS KAHS GJAQLJQW V FMC KW QBTGZHIWU ARK HW HMQ SJLMJRK XO FDTODGE DRJM CLLDCK DMRFK BOIS FCUGE CJ DMRFK YSEGE DRJM BFK EWELA TRDFO US FIR HQZV”
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2012-01-30




Cartões às costas e pernas ao caminho. Parei aqui, sentei-me nas escadas debaixo do alpendre, encostado à coluna. Cartões no chão, uma beata daí apanhada, uma bela beata de quem não gosta de fumar ou de quem não teve tempo para o fazer. Caixa de fósforos, um fósforo. Desinfectei o filtro com a chama, acendi a ponta antes que o fósforo me queimasse os dedos. Após o merecido descanso, a árdua tarefa de armar tenda de papel para aqui pernoitar. A brisa que corria ao início da tarde irritou-se e transformou-se num vendaval tornando a minha tarefa digna de Hércules. Passada umas horas é noite, o frio açoita-me as orelhas, as mãos, os pés. Impossível manter os cartões em pé. Resta-me usá-los como cobertores. Adormeço com o meu estômago a rugir ferozmente por comida e com medo que o gelado ar me provoque ulcerações ou pior.
Não sei que horas eram quando ouvi o barulho. É complicado discernir o tempo quando ele é instável, quando parece parar ele acelera, e vice-versa. O alpendre do prédio onde me abriguei estava todo escuro à excepção de uma linha oblíqua rasgada pela luz de um candeeiro na rua. Era nesse rasgo que se encontrava um perfil desfigurado de um homem visivelmente sem-abrigo, como eu. Os olhos sobressaíam, não sei se sorria ou se estava zangado. Os traços deste vulto desapareciam, contorciam ou camuflavam-se no breu ao menor gesto. Não parava de olhar. Comecei a ficar assustado. Levantei-me, nervoso.
“Não bás embora. Este é o meu sítio, percebes? Mas não precisas de ir embora, é bom ter companhia.”
“Desculpa. Não vi aqui nada quando cheguei, pensei que estava desocupado.”
“Desocupado não tá como podes ber. Se andasses por aí há muito tempo saberias que este lugar sempre foi meu, podes perguntar a quem quiseres. As minhas coisas não tão aqui porque andam sempre comigo, percebes? Não quero que mas roubem, percebes? Durante o dia ando a badiar pelas ruas mas à noite, quando o frio aperta, benho pr’aqui. Tá aqui o meu nome na parede, bês?”
Apontou para a parede mas não vi nada. Os meus olhos habituavam-se já à pouca luz existente mas era, ainda assim, insuficiente para distinguir na parede o que quer que estivesse ali riscado. No entanto não consegui deixar de reparar na aprimorada e bizarra estrutura onde o homem se encontrava. Não deixava de ser uma barraca improvisada mas tinha um aspecto sólido e cómodo, mais resistente que uma casa e igualmente aconchegante.
“Bejo que cobiças a minha casa. É ela a razão por que nunca deixo nada para trás. Não quero que ma roubem, percebes? Tem tudo que eu preciso. É forte, impenetrável, como as bontades, percebes? Demorei a construi-la, chamaram-me maluquinho e tudo mas agora quem se ri sou eu. Todos a inbejam.”
“Eu não invejo a tua casa. Tenho frio, só isso, e parece-me um sítio abrigado. Nem sei como conseguiste pôr isso em pé. Passei horas a tentar equilibrar os meus cartões. E tu, no meio deste vendaval, conseguiste armar a tenda e nem se mexe. Mas do que é feita, mesmo? Só vejo bocados de papel agregados.”
O homem começou a olhar para mim desconfiado, reflectia, primeiro em silêncio, como se decidisse o futuro do planeta, depois murmurando baixinho enquanto abanava a cabeça e o dedo indicador numa direcção e depois na outra. Calou-se. Olhou-me de cima a baixo e logo disse que podia passar a noite ali desde que não fizesse mais perguntas sobre a casa.
“Aproxima-te e encosta-te deste lado que as minhas paredes protegem-te do vento.”
Vi a sua cabeça desaparecer no papel. Seria melhor entrar mas não consegui pedir-lhe. Encostei-me ao sítio que ele me aconselhou e deixei o frágil sono voltar.

2012-01-26


Cabeça baixa, galerias acima, evito o olhar das pessoas que passam. Reconhecem-me, evitam-me, o sem-abrigo. Casa, bocados de cartão com janelas rasgadas, porta com vista para o mundo.
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2012-01-24



Nas margens confusas dos grandes rios negros, no emaranhado dos seus afluentes, as ilhas multiplicam-se. É aqui que procuro um novo refúgio. Desbasto a vegetação, subo às montanhas esculpidas, tento falar com os nativos mas é-me negada a entrada em cada uma das ilhas. Digo que só quero viver no topo das montanhas, onde ninguém vai, onde o vento e a chuva fustigam com maior intensidade. Ninguém abdica do espaço. Tratado como um pária.
Com a noite cresce a aflição. Ouve-se a música que magnetiza. Porém é a noite que traz as memórias distantes e é a música que as transporta. Os músculos sofrem espasmos enquanto fujo das sombras que não me perseguem.
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2012-01-21




O dizer que se estou sozinho é tão falacioso como dizer “Vou embora para nunca mais voltar.” Fomos abandonados... “Deixa lá. Um dia destes tudo acabará, provavelmente antes que comece. Que estás a querer dizer? Um dia destes verás. Estão todos contra ti e todos te odeiam. És estranho. Nada mais és que um nada. Falta a concentração, falta tudo. Mata-os!” 
Recomendação de um mau conselheiro. É tal o ponto onde chegam quer a estupidez quer os mal-entendidos que no final do dia a contagem dos mortos ultrapassava o milhar. Atraí primeiro aqueles que me eram mais próximos e incitei-os contra a facção rival. Farto de batalhas prescindíveis, comecei o extermínio. A minha mente um cemitério. É fácil matar quem não existe. Silêncio. Em tempos estagnados, silêncio. A Solidão pôs-me no lugar. Quis achar que era dono da casa e isso valeu-me a expulsão da mesma. Só a Solidão pode escolher os seus inquilinos. 
 O Alienígena. 
O frio do relento é como a falta de um corpo que me possa tocar. O calor da fogueira é como esse mesmo corpo aquecendo-me no respirar gélido da noite. 
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2012-01-19

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Exílio. Terra sem lugar, sem tempo. Tempo paralisado. Eu paralisado.
Um punhado de almas generosas que nem sequer conheço pessoalmente deu-me a honra de poder escrever algumas linhas num bocado de papel virtual. “O sangue é por tua conta”, disseram. Eu sei bem que a tinta é por minha conta, sempre foi. Na terra onde não há canetas, nem lápis, nem sequer um bocado de carvão, o sangue é sempre por nossa conta. Tenho que o arranjar de alguma forma. Recorro ao meu corpo e ao de alguns cadáveres que descem o rio. Profanar cadáveres não é crime aqui, podemos matar impunemente, violar os corpos sem alma, levada pelas águas.
Passaram meses desde que tudo aconteceu. Parecem séculos. Recebi a sentença acreditando que ela nunca seria executada. Custa-me acreditar que as coisas mudam, no entanto as mudanças carregam-nos às costas como mulas e, se não podem com o nosso peso, arrastam-nos pelo chão. A única coisa que me permite suportar o exílio é a ligação que consigo ainda sustentar com a minha anterior realidade. É frágil este vínculo, não consigo mantê-lo durante muito tempo, apenas o suficiente para me fazer acreditar que o mundo não acabou à minha volta.
Duas pessoas são mais importantes que as outras neste processo. Um deles é o guarda da fronteira que me deixa passar incólume para deambular durante dias entre vielas. Ninguém parece já lembrar-se de mim, às vezes sou ignorado pelo próprio guarda que me deixa simplesmente entrar no país donde fui expulso. Outras vezes tenho que ficar horas a ouvi-lo contar as histórias de como se tornou agente aduaneiro, de como evitou que o país ficasse em risco inúmeras vezes. É uma pessoa interessante, contudo perde-se no período das suas próprias histórias. A outra é a dona do albergue. Tendo sido desterrado fui privado dos documentos que me identificam e isso é usualmente necessário para que me seja permitida a estadia. A mulher, apesar de carrancuda, deixa-me ficar num dos quartos escondidos no fundo do albergue. Uma velha, baixa, que só se queixa das dores de dentes e das dores de vida. No entanto tem uma vida bastante fácil. Não lhe digo isso obviamente, não vá ela expulsar-me do meu quarto, obrigando a esconder-me em buracos bem piores.
Recordações de casa. Os mesmos cantos empoeirados de sempre. Visitas. Pessoas do passado, passageiros das minhas vivências vieram durante os últimos dias inquirir-me, felicitar-me, achincalhar-me, despedir-se.
Os homens que me vieram buscar. As suas gabardinas. Conversa com os homens. “Não é pessoal, amigo. Estamos a cumprir o nosso trabalho. Não leve a mal.” Pobres homens. Paupérrimos homens.

Encerrar de um capítulo. Já vem atrasado. Lamento fazê-lo de uma pátria que não é a minha. O meu crime. O crime de ter roubado um corpo. Um corpo que jamais seria meu. Um corpo que nunca desejou ser meu. O corpo que sempre desejei. O pecado da cobiça. O corpo que perdi. Perdi as ligações sem as ter perdido.
Passei por mentiroso, certamente. Continuo a passar por ardiloso, um impostor, filho da Hipocrisia e do Fingimento. Ela não é minha mãe e não foi isso que sucedeu. Sou órfão. É muito mais complicado que isso. Se quisesse não conseguiria explicar. Quaisquer que fossem as palavras que usasse serviriam de nada no meu caso. Possivelmente seria melhor representado por um advogado. Nenhum desses bichos me quis representar.
O meu exílio não é constante, admito a custo. Voltei e vi que nada mudara em mim. Que merda foi essa? Pareço criar a premissa para um imbróglio. Imbróglio que eu criei para mim e como tal, não me consigo livrar dele.
E agora? Permaneço igual, com mais uma peça, menos uma peça; o que é que isso importa? O que ganhei eu com isto tudo a não ser o meu exílio? Como posso considerar o exílio uma vitória. Sou estúpido ou quê?
(Foi quando reparei que as ligações são muito mais frágeis do que julgara, que eu valho muito menos do que pensara.)

2011-08-05

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Os homens fogem. Eu persigo-os pelas ruas e becos. Um deles, o mais alto, usa uma gabardina amarela, com capuz. O mais baixo veste um fato de terylene cinzento às riscas. Os sapatos não os deixam correr bem. Ecoam nas ruas enquanto batem na calçada. Parecem cavalos. Estou quase a apanhá-los. Mais uns metros. Um deles aponta para um café enquanto passa por ele, cambaleante. Eu olho. É o que procuro! Paro. Miragem. Momentaneamente é o que procuro mas não passa de uma ilusão.
Volto a perseguir os homens. Perdi-os de vista.
Paro novamente, ofegante.
“Para que continuas a insistir? Não vale a pena procurares mais. Sabes quem são os homens?”
“Não, não desisto. Hei-de encontrar!”
“Não vais encontrar nunca. Eu sei o que sentes. Mas não vais encontrar porque nunca perdeste. Tu deitaste fora.”
“Ridículo.”
“É a realidade. Aceita-a. Não queres aceitar a realidade. Nós, aqui, sabemos melhor que tu. Tu enganas-te a ti próprio. Nós temos que sofrer as consequências dos teus actos e estamos fartos. Pensas que não queremos? Queremos mais que tu! Tu não tens noção. Perdeste a noção há muito tempo. Foste tu que fizeste para perder tudo. É por tua causa que vamos ser exilados. É por tua culpa que perdemos o que queremos encontrar. Tu desperdiças o melhor que tens. E nós sentimos tudo.
Nós é que agonizamos enquanto tu andas à procura. A agonia dá-nos vómitos. A tua mente fede com o veneno que expelimos por tua culpa. Tu queres morrer e como sabes que não consegues tentas matar-nos a nós. Feres-nos. As nossas feridas carregam o teu pus, o pus que infecta e turva a tua mente. Adoeces-nos.
Porque destróis tudo? Deixa algo intacto por uma vez nessa miserável vida. Expulsa-nos ao invés de nos aniquilares. Todos os dias somos abalroados por mais uma das tuas lanças. Sabes que também te estás a destruir e no entanto continuas. És uma besta sem açaime. Cão! Verme!”
“Queres começar uma nova guerra? Perderam a última.”
“Não vale a pena falar contigo. Não percebes. Só perdes.”

2011-07-23

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Exaustão. É melhor sentar-me. Acendo um cigarro. Continuo a não encontrar o que ando à procura. Podia encontrar-me a mim. A verdade é que quanto mais se procura menos se encontra, os velhos têm razão.
Não consigo livrar-me da sensação de que alguém me está a observar. Paranóia. Não posso pensar nisso. Só penso em…
“Podias ajudar-me!!”
Não obtenho resposta. Em três passas fumo o resto do cigarro. Levanto-me para continuar a minha busca. Olho para um beco. Estão lá dois homens, numa esquina, a olhar para mim como se eu não os visse. Caminho em direcção a eles. Escondem-se. 

2011-07-21

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Regresso a correr a casa. Subo as escadas, abro a porta, procuro a lupa e volto a sair a correr.
Há-de estar algures.
Não descolo do chão. Procuro incessantemente. A minha mente diz que é inútil mas o corpo manda continuar. De vez em quando olho para trás. Tenho a sensação de estar a ser seguido.

2011-07-20

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Encosto-me a um canto empoeirado. Penso em todas as pessoas que conheço. Enfio o meu nariz no pó. Deito-me completamente. Reviro-me. Estou sujo. Inalo o pó. Tusso. Tenho que sair de casa. Procurar. É preciso procurar. Pode não estar tudo perdido.
Irrompo pela porta e estou no meio das ruas sobrelotadas. Procuro por todo o lado. Vagueio entre as vielas sem nada encontrar. Doem-me os pés. Perdi. Sei que perdi para sempre. Continuo a procurar. Tudo me parece o que quero encontrar. Perdi. Vergonha. Vergonha e medo. O mundo inteiro ri-se de mim. Todos sabem. Deambulo pelas ruas empoeiradas. O sol queima-me. Não encontro. Nunca vou encontrar. Alguém já encontrou. Perdi. Desespero.

2011-07-19

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Acordo com a boca seca. Tenho a sede do homem morto. Alguém bate na porta da cela. É o guarda. Entra, segura com a mão a manga e leva-a ao nariz. Faz um comentário ao cheiro. Diz-me que está na hora. Pergunto-lhe que horas são. Não responde. Olha para mim.
“Tens que tomar banho e vestir-te. Está na hora.”
“Hora de quê?”
“Vais fazer-te de estúpido agora? Segue-me!”
Baixei a cabeça e segui-o. A água gelada da prisão parecia acordar-me a cada gota que caía no meu cachaço. Vesti-me e parei em frente ao guarda. Levou-me pelo braço para uma sala que me era familiar. A mesma sala onde fui condenado. Mais uma vez a sala enche-se com a plateia e com o juiz. As pessoas cochicham nas minhas costas.
Todos se levantam menos o juiz. Faz-me um sinal e chama-me ao pé dele. Após algumas acrobacias debruço-me sobre ele. Ele diz-me ao ouvido que não é preciso a audiência saber a minha sentença. Depois diz que da minha culpa não há dúvida. Não valeria a pena condenar-me à morte, uma vez que já tinha passado por lá e, por exclusão de partes, a melhor punição que encontrara fora o exílio. Pior ainda, ser-me-ia negado o meu maior desejo. Disse que antes do meu exílio tinha que me despedir de todos os conhecidos e dizer-lhes que esta era a minha sentença, que eu era culpado.
Mandou-me para o meu lugar. A plateia inteira cochichava enquanto ia desaparecendo. A sala também desaparecia. Eu pensava no meu desejo irrealizável, para mim muito pior que o exílio.
A sala desapareceu. Estou em casa.

2011-07-11

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O que sei eu?
Até quando tenho que ficar aqui preso?
Condenem-me já à morte. Há vários dias que o ar aqui se tornou irrespirável com o cheiro a fezes e a urina. O meu corpo tem o mesmo cheiro. O pequeno buraco por onde entram as ratazanas é demasiado pequeno para levar a minha diarreia.
Estou farto de me ouvir. Estou farto de falar comigo.
Quero ouvir a minha sentença! Quanto tempo resta? O guarda já não me dá comida há semanas. Perdi a noção do tempo. Uma noite, quando sonhava, pensei que estava no campo, deitado na erva orvalhada a olhar para as estrelas. Tive a sensação de ser uma noite de verão. Perseguiram-me e eu fugi. Sou tão cobarde.
Quando acordei tinha uma barata a olhar para mim. Disse-me que eu estava a tremer e a mexer as pernas. Disse-lhe que era impossível mexer as pernas numa cela tão pequena.
Ela respondeu-me que tudo é possível e esgueirou-se por debaixo da porta.
Chamei-a mas não voltou. Olhei para os dias riscados na parede.
Está demasiado escuro, não consigo ver.
Vale mais fechar os olhos e deixar o tempo atravessar-me.

2011-07-04

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Atrasado.
Três dias passaram e, enjaulado, continuo à espera da sentença.
A minha solitária cela tem 1m², sou forçado a dormir ou em pé ou, aninhado sobre mim mesmo. À 1h em ponto vem o guarda trazer-me a única refeição do dia, nestes últimos três dias. Sei que é 1h porque ouço o sino da igreja, próximo, dar uma badalada. Uma badalada apenas.
Nestes dias tenho pensado no meu crime e por mais que pense nele, não me lembro de o ter cometido. Kafka deverá saber. Pelo menos foi o que um homem me disse um dia, pela porta.
“É mentira, não passaram três dias!”
“Quem disse isso?”
“Eu.”
“Não te vejo.”
“Mas gostavas de ver, não?”
“Claro, há três dias que não vejo ninguém a não ser parte dos dedos assalsichados do guarda.”
“Olha para a poça de água!”
“Só me vejo a mim.”
“Exactamente. Quando queres até sabes.”

2011-05-13

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Queria correr, saltar… Estou preso, atado, as mãos atrás das costas e não consigo sair. O homem branco segura-me pelas pernas enquanto me arrasta. Eu estou a ver o chão passar por mim. Toco-lhe com o rosto. Vejo o reflexo no chão. Não é o meu corpo que se arrasta. Fui privado do meu corpo. Não sei o que fazer para voltar a ele.
Tenho espasmos.
O que se passa?
Não percebo. O homem branco pára e encosta-me a uma pedra. Cuspo a areia que me entrou na boca. O homem balbucia palavras num dialecto que não existe. “O quê?”, pergunto. “Que queres de mim?”. Ele continuou a balbuciar.
Eu, desorientado, comecei a espernear. A fazer birra. O homem começou a olhar para mim fixamente, reparou que eu não percebia o que ele dizia e apontou para uma pedra idêntica aquela onde eu estava encostado. Era o meu corpo. Tremia de mãos atadas atrás das costas. Eu comecei a rir-me. O meu corpo do outro lado fazia o mesmo gesto. Depois disse para me chegar a mim. Não consegui fazê-lo. O meu corpo também não. Agora quem ria era o homem branco.
Apetecia-me chorar. O meu peito parecia conter um campo gravitacional. A pressão era enorme. O outro lado sentia o mesmo. O espaço desértico que me rodeava tornou-se uma sala. Eu estava sentado numa cadeira, no outro lado estava o outro eu e num local mais alto, ao centro, estava o homem branco, um juiz.
Tenho medo de mim.
Tenho medo de mim…
Tenho medo de mim…
Tenho medo de mim…
Tenho que sair…
Tenho que sair…
Tenho que sair…
Foge…
Sai daqui…
Inútil ter estes pensamentos. Era impossível escapar. A sala ficou cheia com a audiência. Começo a sufocar com a sua presença. Sinto que perdi o espaço. Sinto que perdi o tempo. Entram as testemunhas. Dizem que o corpo nunca foi meu, nunca o mereci. Só mereço fazer o que querem que eu faça. Mereço estar preso.
Só consegui dizer que todo o corpo merece liberdade.
Fui condenado.
Desconheço a sentença.

2011-05-06

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Atiraram-me uma pedra. Atingiu-me em cheio na cabeça. Não estava à espera, o que faz com que ainda doa mais. Nem a vi a chegar. Não sei quem a atirou.
Derrubou-me.
Dói.
Dói tanto.
Dói-me não só a cabeça mas o âmago, estrangulado por uma força que não decifro. Há coisas que querem sair mas não podem. Estão vedadas. Eu sou a minha própria vedação. Não me magoa mais a ferida aberta provocada pela pedra. Só magoa lá dentro, no fundo. Anseio por uma resposta que não chega.
Depois, o vazio. O medo continua. Escondo-me de ti. Tu escondes-te de mim lá no fundo. 

2011-04-07

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Eu vi um sapo. O sapo era colossal, do meu tamanho. Disse-me que me odiava desde que se lembrava mas não queria dizer porquê. Revoltado, insisti. Ele não me quis dizer. Ameacei-o com um cigarro. Ele não cedeu. Pus-lhe o cigarro na boca e vi-o vomitar as entranhas a uma distância segura.
Esperei que ele se recompusesse. Não aconteceu.
Esperei dias. Inutilmente. Já não esperava pelo sapo, sei-o com certeza. O sapo começou a cheirar mal. Eu esperei. O sapo desintegrou-se. Eu esperei. 

2011-04-04

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Calmamente levo as mãos a um prato partido e como bocados de porcelana.
Custam um bocado a mastigar mas são facilmente digeríveis.
Defeco caganitas iguais às do coelho branco com os olhos vermelhos.
As caganitas são levadas pelo canário amarelo para o ninho, uma tigela.
Elas crescem. Parecem-se com ovos. Eclodem.
São crias que se assemelham com matrioshkas feitas de porcelana, cujas caras foram desfiguradas por uma criança com os dentes afiados. Elas abriam as bocas para o canário lhes dar de comer mas ele recusava-se porque pensava que eram cucos.
Eu invadi o ninho.
O canário não gostou e começou a picar-me a testa.
Mesmo assim insisti e peguei na primeira matrioshka que consegui.
Abri e lá dentro estava uma outra, feita de madeira.
A terceira era invisível.
Peguei nela e atirei ao chão, pensando que era feita de vidro. Não era.
Ela, atordoada, fugiu e escondeu-se no meio de umas ervas, nunca mais a encontrei.
Voltei ao ninho mas as matrioshkas restantes já fugiam pela árvore de cartão acima. Tentei trepar mas o tronco era demasiado escorregadio.
Atirei berlindes de mármore.
Atirei esferas de metal.
Atirei-me.
Caí.
Estou no chão.
Espero pelas bonecas. Uma pelo menos. O canário canta no topo da árvore uma música que me satiriza. Eu rio-me. Deixo-me estar deitado. Ainda cá estou.

2011-03-23

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Caminhei sobre labaredas. Só os meus pés ficaram queimados. A culpa é do carvão quente. Cheira a carne de porco. Sob as labaredas está o homem.
“Qual é o jantar?” “Não como hoje, não comerei nunca mais.” “Ias comer o quê? A tua própria perna? Bem sabes que aqui não há comida.” “O que queres comer? Não sei o que eu quero.” “Sabes sim. Já te estás a salivar!”